Para ler Pretty Little Liars

Como eu imaginava, a série de livros de Pretty Little Liars de Sara Shepard é um escândalo, ainda mais bafo do que a série deTV. Acontece que, se você ler esperando ver a amizade das 4 Liars transpostas em livro, não se dê ao trabalho, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Passando pela obviedade de que é claro que a série é baseada no livro, portanto tem a mesma história básica, a verdade é que apesar disto muito mais do que características físicas são mudadas na adaptação pra TV. É claro que vale lembrar que na TV certos traços de personalidade são muito mais sutis do que quando são elencados em páginas. Adaptação esta que eu gosto aliás, apesar de alguns problemas de  roteiro e não ser exatamente sofisticada, eu acho que representa bem no gênero teen drama. Só acho que podia se beneficiar se explorasse melhor dramaticamente certos elementos, como os livros fazem.

Neste exato momento ainda estou chocada com as revelações do final do 4º livro, Inacreditáveis (Unbelieveble). Eu tinha lido spoilers, mas aparentemente li spoilers enganosos (o que acabou sendo muito mais legal, admito) e fiquei passada quando vi o desenrolar da história. A série já está em 10 livros, ao que me consta, e acredito que deve seguir tendo fôlego se a autora conseguir dar sequência a evolução das personagens e do enredo, já que muito vai ter que mudar com o fim desta primeira rodada de segredos e mentiras.

Mas não quero dar muitos spoilers nem da série nem dos livros, portanto vou me ater a comentar algumas diferenças na adaptação, especialmente na personalidade e perturbações das personagens principais, que foi o que me chamou mais atenção. Em resumo, todas elas são muito mais solitárias e incompreendidas nos livros do que na TV, é impossível não sentir um dó pungente das situações que as quatro passam. Ah nos livros que também temos uma boa lista do que não fazer em termos de atitudes parentais – ao menos nos três primeiros.

Aria nos livros é muito menos irritante e bem mais perdida do que na TV. Primeiro pois o problema com seus pais está longe de ser o que é mostrado, uma simples separação. Seu romance com Ezra (que também é um bocó nas telas) é muito menos romântico. Aria é de longe minha protagonista menos preferida na TV, ela tem as plotlines mais toscas (toda série tem uma) e é tão inútil que nem ser torturada por -A direito consegue, todas as outras três tiveram mais problemas do que ela. Mas melhora muito nas páginas – apesar de suas péssimas escolhas causarem bastante desconforto.

Hanna por sua vez tem uma personalidade que piora muito nos livros, apesar de isso não ser ruim literariamente. Nos dois primeiros ninguém me deu mais pena do que ela (e olha que em alguns momentos a disputa é dura), mas lá pelo quarto o fato de a única motivação dela é ser perfeita e uberpopular enche o saco, assim como a desconexão dela com o mundo. Ela ainda sofre bastante (bem mais do que na série) e é pisada por quase todo mundo, negligenciada pelos pais, insegura ao extremo. Sua atitude e reações são quase as de uma adolescente típica, e talvez por isso seja mais fácil gostar da simpática Hanna da TV do que da bitchy Hanna dos livros.

A Spencer dos livros é seguramente a mais complexa das personagens principais, e também a melhor. Ela também é obcecada com a perfeição, ainda que de maneira diferente de Hanna, e apesar de tomar atitudes completamente imperfeitas. Suas idas, vindas, pensamentos e motivações fazem a Spencer das páginas mais interessante que a das telas (ainda que a atriz que a interpreta na série seja a melhor entre as quatro). Sua relação com a família consegue ser mais tensa e precária do que na televisão, onde muito da série é adocicado.

Por fim, o que dizer da Emily, ela é a mais bobinha das quatro, o que começa a irritar um pouco e dá uma vontade de dar uma sacudida e dizer pra acordar pra vida. O que de vez em quando acaba acontecendo e dá um alívio. É uma personagem que geralmente vai acumulando tensão, até explodir. Também é muito indecisa, o que é compreensível, mas igualmente irritante. A Emily da TV é mais bacana. Talvez seja a única personagem que sofre nas telas tanto quanto nas páginas, mas de formas diferentes. Sua saída (traumática) do armário poderia ter sido tratada mais fielmente ao livro na televisão.

Quem se levanta?

Jair Bolsonaro teve cerca de 120 mil votos nas últimas eleições, terá mais na próxima se continuar no atual ritmo. Explica-se: Bolsonaro não era um político da linha de frente. Veja bem, não era desconhecido, e aqueles mais interessados em direitos humanos já sabiam dos disparates dele, mas não era, ou ao menos não me parecia na visão de uma pessoa razoavelmente bem informada sobre política, que fosse nenhuma grande liderança dentro da Câmara ou socialmente. A partir da ampla divulgação dos acontecimentos de sua malograda entrevista no CQC, ele virou mais uma “voz da decência entre os libertinos”. Bolsonaro não perderá votos por causa de suas recentes declarações, porque estas sempre foram suas ideias, e quem já votava nele concorda com o que ele defende, só que agora ele parece ter ganhado um aliado, a mídia. Não que a mídia vá concordar com ele, muito pelo contrário, todos são unânimes em apontar como ele é terrível e preconceituoso, o CQC foi o primeiro a fazer isso, mas… continuou dando “ibope” pra ele. E o que se vê agora é muita gente que encontrou nele um líder. Ou seja, se antes Bolsonaro era um ignorante com poder, este poder foi multiplicado, pois o deputado já mostrou que sabe e irá usar a visibilidade que está tendo muito bem. Para concluir esta primeira parte: sim, eu culpo o CQC por tudo isso – mas a vastidão de absurdos que o programa se tornou é conversa pra outro momento.

Não sei quais foram as circunstâncias que antecederam a altercação entre o dep. Bolsonaro e a Sen. Marinor Brito, vi o que passou na TV. Marta Suplicy dava uma entrevista sobre algum ponto com respeito aos homossexuais na cartilha dos direitos humanos e era atrapalhada por Bolsonaro e sua trupe, até que a senadora paraense perdeu a paciência, subiu nas tamancas e tacou um monte de justos desaforos contra Bolsonaro. Este se utilizou dos subterfúgios de sempre, liberdade de expressão, preconceito reverso e ataques “não pode ver um heterossexual na frente dela que alopra. (…) Ela deu azar duas vezes: uma que sou casado e outra que ela não me interessa.” Deixarei de lado aqui a interpretação perversa que alguns tem do conceito de liberdade de expressão, e a falácia da heterofobia, para me concentrar no fato que o deputado Bolsonaro tem uma resposta pronta sempre que é atacado, questionado ou criticado por mulheres e homossexuais, a desqualificação sexual e social: “os gays respondem assim porque todos estão interessados em mim e eu não dou bola” ou “estas mulheres agem assim porque são umas frustradas, não tem um homem” etc, etc – ele não responde assim aos negros, pois racismo é crime no Brasil, portanto tem que fugir das acusações, já preconceito contra mulheres e homossexuais é aberto, permitido até encorajado.

O interessante, no entanto é que ele nunca parece responder com a mesma firmeza e empáfia contra homens, heterossexuais. Ainda que estes não sejam normalmente a maioria de seus maiores críticos ou de seus inimigos públicos, estranhamente já que estes são maioria em Brasília (ou nem tanto). De qualquer forma, não precisa ser um gênio para entender o porquê desta diferença de atitude com relação às minorias. Compreendo a atitude da senadora Marinor, quando se fala em agressão, geralmente se refere a agressão física, que é deplorável de fato, mas pouco se fala da agressão verbal e principalmente moral a qual as minorias são sujeitas todos os dias, particularmente as minorias de gênero (mulheres e homossexuais), que como falamos não possuem nenhuma defesa legal, ou social. São as piadas de gays, piadas de mulheres. Quantos de nós se levantam para reclamar quando uma mulher é chamada de “mal comida” por razões as quais um homem é chamado de um pouco mais que “chato”? E quando a única voz dissonante se levanta para falar algo é taxada de “radical” ou pior.

Quanto tempo se agüenta esse tipo de agressão e abuso, essa desmoralização, a qual se perde palavras, pois irrita e indigna, até explodir? E se parece que eu estou pedindo para que alguém nos defenda, não deixa de ser verdade, mas acredito que melhor do que outros defenderem as “minorias” seria que mais se indignassem com a maneira com que elas são tratadas.

Triste viagem a Argentina

Sempre acreditei que a América Latina fosse uma só, todos hermanos latino americanos. No entanto como todos sabemos existem níveis e desníveis, os preconceitos sao vários. O Paraguay, por exemplo, é visto como um país com muito pouco a oferecer, e fora muambas diversas a única outra coisa a sair de lá recentemente foram os 15 minutos de fama de Larissa Riquelme. Já a Argentina é um dos principais portos turísticos do continente. Interessante e cheia de requinte, a capital Buenos Aires já foi chamada por alguns de Paris do sul. Não sei, nunca estive em nenhuma das duas, mas sempre duvidei bastante. De qualquer forma a Argentina goza de uma boa imagem, piadas de argentinos e seu ego a parte, especialmente para aquele grupo de brasileiros (que se proliferam aos montes pelo RS ao menos) que adoram falar mal do Brasil e “pagar-pau” para estrangeiros em geral, especificamente argentinos.

Pois bem, em férias com a família na Argentina neste verão (sim, eu ainda saio em férias em família), saímos do Rio Grande de carro via São Borja rumo as missões Argentinas. Passamos dois dias na cidade de Posadas, capital da província das Missiones de onde saímos para visitar duas ruínas missioneiras bastante interessantes em Santa Ana e San Ignacio Mini. Posadas é uma cidade consideravelmente simpática, bem ajeitada (no centro ao menos), fomos bem tratados, comemos bem – no relato de viagem que eu esperava produzir depois um galeto na beira do rio Paraná ia entrar na lista de uma das melhores refeições que eu me lembre. No domingo saímos de Posadas em direção ao Paraguay para visitar a missão de Trinidad. Entramos e saímos do Paraguay em cerca de duas ou três horas, a ideia de subir até Assunção para depois voltar a Argentina foi rechaçada, minha mãe tinha medo de que tipo de acomodações poderíamos encontrar no Paraguay, um dos países mais pobres da América do Sul e com má fama, como mencionado anteriormente.

O plano original era atravessar o norte da Argenina até o noroeste do país, em Salta, porém devido a distância e o despovoamento da estrada até lá – com cidades com o pitoresco nome de Pampa del Infierno, por exemplo – mudamos de ideia e resolvemos descer o país até Buenos Aires, de lá atravessaríamos o Prata até Montevideo e costearíamos o Uruguay de volta ao Rio Grande. Não é necessário dizer, claro, que a ideia era ir parando e conhecendo várias cidades no caminho. Pois bem, ao sairmos da província das Missiones, entramos na província de Corrientes, de capital homônima, viajamos a tarde toda e pretendíamos passar um ou dois dias lá. Corrientes é a principal cidade do norte da Argentina, e uma das principais do país.

Era cerca de 21h entramos em Corrientes e desciamos a grande avenida de acesso da cidade em direção a Costaneira (margens do rio Paraná) a procura de um hotel e restaurantes. Vale dizer que o calor que fazia (faz) nesta região da Argentina é absurdo, algo como 40 e poucos graus, só o que nos salvava era o ar condicionado do carro, as missões apesar de lindas foram passeios extremamente custosos por todo esse calor. Paramos em um sinal, ao lado de uma inexplicável e adiantada passarela de carnaval que interrompia o trânsito nas pistas centrais da avenida. Ao fim de uma conversar trivial qualquer ouvimos um estrondo, em pouco segundos vimos, atômitos obviamente, um homem quebrar o vidro (imaginamos que com alguma pedra ou pedaço de ferro) e levar a bolsa que minha mãe, sentada no lugar do carona, levava no colo, sair correndo pela esquina e voltar a garupa de uma moto. Na bolsa, todos documentos e cartões de crédito dela, pertences pessoais, máquina fotográfica, assim como cerca de R$2000 (em reais, pesos e dólares). Presos pelo cinto de segurança e com as portas do carro trancadas o breve instinto de sair correndo atrás do cara foi frustrado. Atordoados, perguntamos se ela se tinha se machucado (alguns muito pequenos arranhões no braço só), e pensamos no que fazer, ocorrência policial e um hotel para poder ligar e cancelar logo os cartões.

As próximas duas horas foram passadas na delegacia fazendo o b.o., os policiais então foram bastante gentis, apesar das péssimas condições de trabalho que podíamos perceber que eles tinham, acomodações desconfortaveis, quente demais, e o computador usado para registrar o o acontecido não tinha menos de 20 anos. Mas nos guiaram pela cidade até encontrarmos um hotel. O resto da noite foi passado cancelando cartões até o cansaço ficar invencível. No dia seguinte, segunda-feira, enquanto minha mãe resolvia mais algumas questões e eu e minha irmã dormíamos, meu pai foi procurar um lugar para arrumar a janela do carro. Já era quase meio dia quando ele voltou com a seguinte história: arrumar o vidro do carro foi fácil e barato, seguiu orientações e rapidinho já estava se encaminhando de volta ao hotel, para que pudéssemos discutir que rumos tomar. No entanto no caminho passou por o que ele disse ter visto como um sinal apagado, os policiais que o pararam contestaram que ele havia ultrapassado um sinal vermelho e lhe mostraram as severidades da multa que teria que arcar. 4000 litros de gasolina, uma sentença demorada, mundos e fundos. Tudo podia ser deixado de lado rolando uma graninha. Sem saber o que fazer diante da coação policial, meu pai concordou em dar os 150 dólares que o “agente da lei” pedia. Como só tinha duas notas de 100 dólares, mais boa parte do resto de pesos que havia sobrado a família, deu uma nota das notas de dólar enquanto viu o policial passar a mão no resto de seus pesos. Depois de mais essa não tínhamos mais vontade, ânimo, segurança ou dinheiro para continuar a viagem e saímos correndo de Corrientes em direção à fronteira brasileira.

Ao voltar ao Brasil – iniciei este relato ainda na estrada Argentina e termino em Pelotas – ficamos sabendo que a achacação policial anda bastante forte na Argentina, e a criminalidade também está em alta, tudo isso especialmente voltado a turistas, afinal a placa dos carros se transforma em um chamariz a este tipo de atividade. Onde há turistas há dinheiro. Infelizmente também sei que a recíproca é verdadeira, ouvimos frequentes notícias de turistas atacados por criminosos no Brasil, não sei como os policiais brasileiros tem tratado os turistas, especialmente argentinos frequentadores assíduos dos nossos litorais, e que vem geralmente dirigindo, talvez de forma parecida aos achacadores argentinos.

Em um momento de indignação postei no twitter que aqueles que reclamam do Brasil e exaltam nossos vizinhos deviam perceber que somos todos o mesmo lixo. Exagero, não somos lixo, mas temos sim os mesmos problemas, mazelas parecidas e culturas muito similares. E tudo isso tem que ser sanado, preferencialmente em conjunto. Utopias a parte, algo de concreto poderia ser feito pelos governos de ambos países para, no mínimo evitar que turistas virem alvos francos de criminalidade e coação policial, isso não apenas acaba com o lazer, mas muito mais grave destrói a imagem de um país. O brasileiro sofre de um terrível caso de baixa auto-estima (pra não dizer que alguns chegam ao extremo do “auto ódio”) por situações como estas que narrei acima.

Ao término dessa, infelizmente, curta temporada na Argentina acabo(amos) triste e frustrada. Não somente pelo dinheiro e bens perdidos, pelas incomodações e susto, mas principalmente pelo aniquilamento de uma viagem extremamente agradável até então. No entanto saio mais convencida do que nunca que somos todos irmão latino-americanos de fato, embora nem todos vejam ou se tratem desta forma.

Glória a todas as lutas inglórias

Dois motivos me levam a escrever este post, o primeiro, e mais importante, é o centenário da Revolta da Chibata. Motivado pela data foi apresentado um especial na Globo News sobre o tema. Neste especial uma das principais fontes era o Almirante Leôncio Martins, historiador naval, que minimiza a importância da Revolta, e para quem não apenas João Cândido não merece a alcunha Almirante Negro, como dá a entender que os revoltosos tinham pouco do que reclamar, uma vez que a chibata era um castigo considerado leve dentro das tradições navais. Ele também disse que era muito difícil para os oficiais controlarem os marinheiros, pois estes tinham um nível técnico e também moral muito baixo devido a suas origens sócio-culturais. O que o Almirante Leôncio quis dizer, é que para controlar a turba de negros, rudes e sem caráter, antes umas chibatadas ao enforcamento, que uma vez fora prática da marinha.

O segundo motivo é um documentário muito interessante que vi sobre os hippies nos anos 60. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tanto João Cândido, como os hippies tornaram-se símbolos, de coisas diferentes é verdade e guardadas as devidas proporções, mas símbolo de luta contra as práticas sociais estabelecifas. João Cândido foi um herói de fato, e como todo herói, o mito vira maior que o homem. Já os hippies foram um movimento de contracultura iniciado nos EUA que se espalhou pelo ocidente, que tomou proporções enormes e foi um dos fatores a causar uma grande revolução cultural que mudaria a sociedade. Tanto à João Cândido como o movimento hippie não são dadas importância e reflexão que merecem. João Candido, um dos mais genuínos heróis do solo brasileiro mereceu algumas palestras, livros, mas no geral apenas uma nota nos jornais diários. Onde está o filme sobre João Cândido e a Revolta da Chibata? E a minissérie da Globo? A história é pronta praticamente e tem quase tudo que o povo gosta – exceto por heróis brancos talvez!? Já o movimento hippie é conhecido e reconhecido, mas talvez não da maneira de sua mais interessante importância histórica.

Hoje em dia para alguém da minha geração, ao menos, se tornou algo levemente patético se preocupar com política ou pensar em revoluções. O fim das utopias é uma das marcas da pós-modernidade, culpa do pragmatismo da direita, culpa também das decepções com a esquerda (não é só porque o governo da esquerda no Brasil vem dando certo que não tenha sido uma decepção como esquerda, especialmente no começo), é comum que se pense que não há mais pelo que lutar. É ainda mais comum que se pense que não adianta lutar, que as revoluções e revoltas não servem pra nada, João Cândido morreu esquecido, o faça amor não faça guerra claramente fracassou, Che Guevara (outro mito e herói de nosso tempo) foi assassinado na selva colombiana sem muitos aliados, as revoluções e os revolucionários voltaram atrás… A sociedade em que vivemos também tem seus mecanismos para manter o status quo, e por isso João Cândido foi esquecido, os hippies ridicularizados, Che Guevara vira um inofensivo símbolo pop (e sabem que eu gosto de pop, mas… cada coisa em seu lugar), os revolucionários se corrompem e as revoluções fracassam.

No entanto o que poucos entendem é que na verdade eles não fracassaram. Se os hippies não acabaram com as guerras e com a ganância, as mudanças da sociedade e cultura da metade do século 20 pra cá, se devem em grande parte a eles, por mais porra-loca que fossem. Assim como, se queimar sutiãs parece um ato inócuo e de pouca serventia, é por causa daquelas que assim o fizeram nos 60 e 70 que hoje nós podemos desfrutar de muito mais liberdade do que as mulheres de gerações passadas. João Cândido foi vitorioso, a chibata terminou de fato, mas é um vitorioso não só por isso, mas porque se não fossem homens como João Cândido (e Che Guevara, entre outros) o mundo seria ainda mais injusto. Se estas pessoas, ou movimentos não mudaram tudo que queriam, não importa, pois cada um deu de sua maneira contribuições para uma melhoria na sociedade. O que o Almirante Leôncio Martins não entende é que se o homem João Cândido não era digno, em sua opinião, de carregar o título de Almirante não importa, porque a idéia que ele representa não há estrelas militares que comportem. E às ideias não se sufocam com cal, as ideias são, como reza a cultura pop, a prova de balas.

a direita nunca perde

A direita nunca perde! O que quero dizer com isso é que mesmo quando não ganha, a direita sempre tira alguma vantagem. Este ano não será diferente. Para mim Dilma Roussef ainda é a favorita e muito provavelmente será a presidente eleita, no entanto esta campanha, e em especial o segundo turno da campanha, comprova de que no Brasil, de cada dois passos à frente se paga um para trás.

Desta vez foi com o inesperado, a questão religiosa, os direitos civis e humanos. Inesperado em termos, pois quando dois entre os principais candidatos são mulheres, esse tipo de baixaria não pode ser considerado tão inesperado. Afinal é com baixaria que a sociedade trata suas minorias em geral. Temos a agradecer por trazer a religião a um debate eleitoral em pleno século XXI a uma destas mulheres, aliás, Marina Silva e sua neutralidade. Marina e sua onda verde, seriam uma reação da classe média, envergonhada em votar escancaradamente no Serra? Ou na verdade uma reação de fundos religiosos? Quem ainda não entendeu como a(s) igreja(s) podem influenciar de tal maneira a votação sugiro a leitura de texto de Maria Inês Nassif comentarista de política do jornal Valor, que explica a questão muito melhor do que eu poderia. Estes “votos religiosos” migraram de Dilma – a “mulher má”, guerrilheira, cara de braba, pró-liberdades civis – para Marina, meiga e muito religiosa, com uma agenda de neutralidade política e social que previa plebiscitos para qualquer assunto espinhoso. Apesar de tal nível de democracia ser até admirável, em minha modesta opinião plebiscitos são a maneira mais fácil e dissimulada (já que não se dispõe a desafiar nenhum dos lados) de manter tudo exatamente igual. Mas enfim, Marina usufruiu desta questão, ela usufruiu, por que o seu partido é, até o momento insignificante no cenário nacional, um legítimo partido de personalidades (como Marina e Gabeira). É a partir daí que a direita, e uma parte particularmente canalha da direita, cobrará seu pedágio.

Faço questão de fazer um parêntese aqui para esclarecer que não tenho ilusões de que o Lula fez em seu governo um modelo de política socialista. Tenho muitas críticas ao governo dos últimos oito anos, no entanto seus resultados foram tão superiores ao dos governos anteriores, em todos os aspectos, inclusive em preocupar-se pela primeira vez com a sociedade brasileira, com a população brasileira, que é impossível não ficar do lado da continuação deste modelo.

Mas, voltando à idéia original, este segundo turno não significa apenas uma ampliação das concessões políticas. Não significa somente ter que depender ainda mais do PMDB, que com pequenos golpes de parte de seus quadros (Pedro Simon acha que pode passar suas mudanças de candidato como caduquice?) ajudaram espertamente a construir este segundo turno. Também significa ainda mais do que ter de aturar apoios doloridos como o do PP(B), ou fatiamento ainda maior de cargos e ministérios, e tenho certeza que a nobilíssima Marina e o PV se a tal consenso chegarem, não se oporão a clamarem por sua fatia do bolo. A maneira que este segundo turno encaminhou certas questões, estressadas e utilizadas de forma exaustiva e grotesca pelo candidato José Serra – que já disse Ciro Gomes, pela presidência seria capaz de passar com um trator por cima do pescoço da própria mãe – definiu uma vitória do conservadorismo social. Seja quem for eleito, mudanças sociais necessárias como direitos básicos aos homossexuais e a legalização total do aborto, entre outras questões de direitos civis e humanos, estarão muito provavelmente fora do cardápio por no mínimo mais quatro anos. Ganham os lados conservadores das igrejas, que na história da humanidade sempre estiveram contra qualquer avanço social. Enfim ganha a direita, porque para mim é impossível separar conservadorismo social da direita política.

Se antes Dilma, a candidata que me parece mais afeita a tais avanços sociais, e menos disposta a sacrificá-los em nome do apoio das camadas mais conservadoras, podia se esquivar de tais polêmicas e deixar sua posição em aberto, possibilitando uma vez eleita promover uma discussão e mudanças na legislação como o PNDH3. Agora em troca de apoio dos padres e pastores do Brasil e para apaziguar os milhões de inspetores da vida alheia que formam o eleitorado brasileiro, a candidata teve que comprometer-se a não mudar nada. Quem ganha com isso? A “moral e os bons costumes” só pode, porque o Brasil certamente não é. Mesmo que a maioria da população seja contra temas como os citados (e creio que estes dois são de fato os mais importantes do PNDH3) isso na verdade pouco importa. Ora, a democracia é o regime da maioria, mas não é só o regime da maioria, é o único regime que de fato, dá voz as minorias (idéia do principal teórico de comunicação do país Muniz Sodré, e humildemente corroborada por esta que vos fala). E o dever de um governo em um estado democrático é prover direitos básicos a todos seus cidadãos, e é disso que estes direitos civis tratam nada mais do que a igualdade básica às minorias.

No entanto, infelizmente, no Brasil há uma recusa ao estado laico, a um país moderno, afinal um país moderno serve ao povo, não apenas ao dominante e à maioria, mas a todos. Poderia escrever outro texto, ou na verdade uma tese sobre como se dão as eternas conquistas da direita, afinal eles são muitos, são espertos, detém o controle de algumas das mais poderosas instituições mundiais (ex: igrejas e mídia), não tem constrangimento em jogar sujo e contar com os mais obscuros dos sentimentos humanos, o medo e o ódio.

Por fim, os candidatos seguem a linha que já tomou FHC, ateu convicto, convertido em prol da presidência, linha ditada há quase 500 anos pelo rei Henrique de Navarra da França, “Paris bem que vale uma missa”. Para eleitores como eu, indignados com o rumo das coisas pouco adianta, gosto e acredito em Dilma embora deteste tais alianças, mas não apoiá-la (e não entender o porquê destas alianças) significa cair no risco de ver não apenas um, mas muitos passos serem dados para trás e ainda mais à direita.

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