De tempos em tempos alguma coisa acontece e mostra exatamente a verdadeira posição da mulher na sociedade. Bem, na realidade estas coisas acontecem todo dia, hora e minuto, mas as vezes alguma delas toma tal visibilidade que serve de exemplo para discutir o moralismo e hipocrisia da sociedade. O caso da estudante Geisy Arruda da Uniban, é um destes. Geisy foi humilhada, perseguida, acossada, e teve sua integridade violada pelo que só pode ser descrito como uma turba ignóbil. Um perfeito caso de bullying, com toques de misoginia e sexismo.
Identificados os culpados, o que não seria difícil considerando que todo o acontecimento foi filmado e postado no youtube, com direito a descrição chamando a moça de puta, o mínimo que se esperava da tal Uniban (instituição acadêmica que apesar de seus 60 mil alunos era até tal evento completamente irrelevante) era uma punição exemplar a pelo menos uma meia dúzia entre os “líderes” do tumulto. Ao invés disso a Uniban resolveu expulsar a vítima da agressão, sob a desculpa que ela teve uma “atitude provocativa”. A instituição anunciou isso através de um informe publicitário em jornal. Seus representantes tiveram a cara dura de dizer que não foi pelo vestido ou pela situação, mas uma conjunção de acontecimentos que mostrava desrespeito de Geisy para com a o ambiente escolar, a universidade disse ter recebido emails de estudantes e país de alunos, indignados – não com a violência explicita que ocorre dentro dos prédios universitários – mas com o fato de que as alunas da Uniban estavam marcadas como “vagabundas”. As fontes e acusadores, é claro, foram os próprios integrantes da “manada” que perseguiu a estudante. Destes, nada se sabe, não foram julgados, não apareceram nem sequer demonstraram arrependimento, aliás dentro do campus de São Bernardo, foram aparentemente ovacionados, pois ao que se tem noticiado, a maioria dos estudantes da Uniban (não todos, deve se deixar claro) apóia a expulsão da aluna.
Mas, dos covardes se pode sempre esperar a covardia, a repercussão negativa tanto da sociedade, quanto das autoridades competentes levou a direção a voltar atrás, Geisy pode retornar às aulas. Escoltada pela polícia, provavelmente, afinal não vejo como essa moça poderá retornar em segurança a tal ambiente. Ora, estamos no final da primeira década do século 21, e tivemos um semi-linchamento por causa de uma roupa curta!!! (Aliás pelo que pude ver nem tão curta assim). Isso no país do carnaval, das mulheres-fruta, aparentemente ainda existem alguns pecados ao sul do equador.
É tudo uma questão de propriedade, dizem. Não era próprio pra uma aluna ir vestida de “tal forma” a faculdade. Bom, até poderia concordar que existe hora e lugar para certo tipo de roupa e comportamento, mas, em alguns anos nos bancos universitários já vi coisa mais curta, mais brega, e mais imprópria, e ainda que a menina estivesse nua em pelo, ninguém merece ser tratado daquela maneira. E outra, e os rapazes que vão a aula vestidos com igual impropriedade com calças e bermudas despencando e deixando metade da cueca/bunda a mostra? Isso não é contra a moral e os bons costumes?
Eles tem razão em uma coisa, no entanto, o problema não era a roupa, afinal quem nunca tirou sarro da roupa de alguém na escola, na faculdade, no trabalho. O problema é um bando de neandertais, semi letrados querendo impor aos outros como se vestir, o problema é a perseguição e humilhação de uma pessoa a troco de nada, o problema são as explicações de que “ela estava pedindo por isso”. Que, aliás, é coincidentemente a desculpa de todos estupradores do mundo.
O caso da Uniban, mostra o quanto de hipocrisia e incoerência ainda existe nesse Brasil, e principalmente o quanto os direitos e as liberdades da mulher ainda são frágeis em uma sociedade onde não lhe é permitido nem imitar, se tanto, o que se vê na TV.
Para afastar o marasmo, a produção decidiu fazer o famoso concurso para escolher o 8º integrante. Depois da semifinal da última segunda-feira, fiquei sabendo alguns boatos e resolvi dar o meu pitaco. Eu gostei do concurso, achei engraçado e pelo menos não foi aberto a votação publica (ao menos até a final) acho que aí sim seria uma furada mesmo. Gostei das finalistas, sim, eu estava torcendo pra uma mulher entrar (f**a-se, eu sou feminista e até as pequenas vitórias contam), e acho que a Monica Iozzi e Carol Zoccoli foram muito bem e mereceram a posição. Fiquei chateada, entretanto, com alguns comentários que vi no Twitter após o último programa, deveria estar acostumada, mas me incomodou ver todo o machismo do povo só porque duas mulheres tiveram mais competência de ir pra final de um concurso de humor. Comentários do tipo “foi marmelada, queriam colocar uma mulher desde o início”, “colocar uma mulher no CQC é como colocar um homem na liga das mulheres do Fantástico”, “uma mulher no CQC vai virar apelação que nem no Pânico” são o tipo de besteira que o povo propaga jurando ter todos argumentos e razão do mundo, afinal não se tem conhecimento de boas humoristas no mundo, a entrada de uma mulher no meio de homens em um ambiente profissional só pode gerar baixaria mesmo.








