Glória a todas as lutas inglórias

Dois motivos me levam a escrever este post, o primeiro, e mais importante, é o centenário da Revolta da Chibata. Motivado pela data foi apresentado um especial na Globo News sobre o tema. Neste especial uma das principais fontes era o Almirante Leôncio Martins, historiador naval, que minimiza a importância da Revolta, e para quem não apenas João Cândido não merece a alcunha Almirante Negro, como dá a entender que os revoltosos tinham pouco do que reclamar, uma vez que a chibata era um castigo considerado leve dentro das tradições navais. Ele também disse que era muito difícil para os oficiais controlarem os marinheiros, pois estes tinham um nível técnico e também moral muito baixo devido a suas origens sócio-culturais. O que o Almirante Leôncio quis dizer, é que para controlar a turba de negros, rudes e sem caráter, antes umas chibatadas ao enforcamento, que uma vez fora prática da marinha.

O segundo motivo é um documentário muito interessante que vi sobre os hippies nos anos 60. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tanto João Cândido, como os hippies tornaram-se símbolos, de coisas diferentes é verdade e guardadas as devidas proporções, mas símbolo de luta contra as práticas sociais estabelecifas. João Cândido foi um herói de fato, e como todo herói, o mito vira maior que o homem. Já os hippies foram um movimento de contracultura iniciado nos EUA que se espalhou pelo ocidente, que tomou proporções enormes e foi um dos fatores a causar uma grande revolução cultural que mudaria a sociedade. Tanto à João Cândido como o movimento hippie não são dadas importância e reflexão que merecem. João Candido, um dos mais genuínos heróis do solo brasileiro mereceu algumas palestras, livros, mas no geral apenas uma nota nos jornais diários. Onde está o filme sobre João Cândido e a Revolta da Chibata? E a minissérie da Globo? A história é pronta praticamente e tem quase tudo que o povo gosta – exceto por heróis brancos talvez!? Já o movimento hippie é conhecido e reconhecido, mas talvez não da maneira de sua mais interessante importância histórica.

Hoje em dia para alguém da minha geração, ao menos, se tornou algo levemente patético se preocupar com política ou pensar em revoluções. O fim das utopias é uma das marcas da pós-modernidade, culpa do pragmatismo da direita, culpa também das decepções com a esquerda (não é só porque o governo da esquerda no Brasil vem dando certo que não tenha sido uma decepção como esquerda, especialmente no começo), é comum que se pense que não há mais pelo que lutar. É ainda mais comum que se pense que não adianta lutar, que as revoluções e revoltas não servem pra nada, João Cândido morreu esquecido, o faça amor não faça guerra claramente fracassou, Che Guevara (outro mito e herói de nosso tempo) foi assassinado na selva colombiana sem muitos aliados, as revoluções e os revolucionários voltaram atrás… A sociedade em que vivemos também tem seus mecanismos para manter o status quo, e por isso João Cândido foi esquecido, os hippies ridicularizados, Che Guevara vira um inofensivo símbolo pop (e sabem que eu gosto de pop, mas… cada coisa em seu lugar), os revolucionários se corrompem e as revoluções fracassam.

No entanto o que poucos entendem é que na verdade eles não fracassaram. Se os hippies não acabaram com as guerras e com a ganância, as mudanças da sociedade e cultura da metade do século 20 pra cá, se devem em grande parte a eles, por mais porra-loca que fossem. Assim como, se queimar sutiãs parece um ato inócuo e de pouca serventia, é por causa daquelas que assim o fizeram nos 60 e 70 que hoje nós podemos desfrutar de muito mais liberdade do que as mulheres de gerações passadas. João Cândido foi vitorioso, a chibata terminou de fato, mas é um vitorioso não só por isso, mas porque se não fossem homens como João Cândido (e Che Guevara, entre outros) o mundo seria ainda mais injusto. Se estas pessoas, ou movimentos não mudaram tudo que queriam, não importa, pois cada um deu de sua maneira contribuições para uma melhoria na sociedade. O que o Almirante Leôncio Martins não entende é que se o homem João Cândido não era digno, em sua opinião, de carregar o título de Almirante não importa, porque a idéia que ele representa não há estrelas militares que comportem. E às ideias não se sufocam com cal, as ideias são, como reza a cultura pop, a prova de balas.

Publicado em 23/11/10, em crônicas, Nostalgias e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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