Triste viagem a Argentina
Sempre acreditei que a América Latina fosse uma só, todos hermanos latino americanos. No entanto como todos sabemos existem níveis e desníveis, os preconceitos sao vários. O Paraguay, por exemplo, é visto como um país com muito pouco a oferecer, e fora muambas diversas a única outra coisa a sair de lá recentemente foram os 15 minutos de fama de Larissa Riquelme. Já a Argentina é um dos principais portos turísticos do continente. Interessante e cheia de requinte, a capital Buenos Aires já foi chamada por alguns de Paris do sul. Não sei, nunca estive em nenhuma das duas, mas sempre duvidei bastante. De qualquer forma a Argentina goza de uma boa imagem, piadas de argentinos e seu ego a parte, especialmente para aquele grupo de brasileiros (que se proliferam aos montes pelo RS ao menos) que adoram falar mal do Brasil e “pagar-pau” para estrangeiros em geral, especificamente argentinos.
Pois bem, em férias com a família na Argentina neste verão (sim, eu ainda saio em férias em família), saímos do Rio Grande de carro via São Borja rumo as missões Argentinas. Passamos dois dias na cidade de Posadas, capital da província das Missiones de onde saímos para visitar duas ruínas missioneiras bastante interessantes em Santa Ana e San Ignacio Mini. Posadas é uma cidade consideravelmente simpática, bem ajeitada (no centro ao menos), fomos bem tratados, comemos bem – no relato de viagem que eu esperava produzir depois um galeto na beira do rio Paraná ia entrar na lista de uma das melhores refeições que eu me lembre. No domingo saímos de Posadas em direção ao Paraguay para visitar a missão de Trinidad. Entramos e saímos do Paraguay em cerca de duas ou três horas, a ideia de subir até Assunção para depois voltar a Argentina foi rechaçada, minha mãe tinha medo de que tipo de acomodações poderíamos encontrar no Paraguay, um dos países mais pobres da América do Sul e com má fama, como mencionado anteriormente.
O plano original era atravessar o norte da Argenina até o noroeste do país, em Salta, porém devido a distância e o despovoamento da estrada até lá – com cidades com o pitoresco nome de Pampa del Infierno, por exemplo – mudamos de ideia e resolvemos descer o país até Buenos Aires, de lá atravessaríamos o Prata até Montevideo e costearíamos o Uruguay de volta ao Rio Grande. Não é necessário dizer, claro, que a ideia era ir parando e conhecendo várias cidades no caminho. Pois bem, ao sairmos da província das Missiones, entramos na província de Corrientes, de capital homônima, viajamos a tarde toda e pretendíamos passar um ou dois dias lá. Corrientes é a principal cidade do norte da Argentina, e uma das principais do país.
Era cerca de 21h entramos em Corrientes e desciamos a grande avenida de acesso da cidade em direção a Costaneira (margens do rio Paraná) a procura de um hotel e restaurantes. Vale dizer que o calor que fazia (faz) nesta região da Argentina é absurdo, algo como 40 e poucos graus, só o que nos salvava era o ar condicionado do carro, as missões apesar de lindas foram passeios extremamente custosos por todo esse calor. Paramos em um sinal, ao lado de uma inexplicável e adiantada passarela de carnaval que interrompia o trânsito nas pistas centrais da avenida. Ao fim de uma conversar trivial qualquer ouvimos um estrondo, em pouco segundos vimos, atômitos obviamente, um homem quebrar o vidro (imaginamos que com alguma pedra ou pedaço de ferro) e levar a bolsa que minha mãe, sentada no lugar do carona, levava no colo, sair correndo pela esquina e voltar a garupa de uma moto. Na bolsa, todos documentos e cartões de crédito dela, pertences pessoais, máquina fotográfica, assim como cerca de R$2000 (em reais, pesos e dólares). Presos pelo cinto de segurança e com as portas do carro trancadas o breve instinto de sair correndo atrás do cara foi frustrado. Atordoados, perguntamos se ela se tinha se machucado (alguns muito pequenos arranhões no braço só), e pensamos no que fazer, ocorrência policial e um hotel para poder ligar e cancelar logo os cartões.
As próximas duas horas foram passadas na delegacia fazendo o b.o., os policiais então foram bastante gentis, apesar das péssimas condições de trabalho que podíamos perceber que eles tinham, acomodações desconfortaveis, quente demais, e o computador usado para registrar o o acontecido não tinha menos de 20 anos. Mas nos guiaram pela cidade até encontrarmos um hotel. O resto da noite foi passado cancelando cartões até o cansaço ficar invencível. No dia seguinte, segunda-feira, enquanto minha mãe resolvia mais algumas questões e eu e minha irmã dormíamos, meu pai foi procurar um lugar para arrumar a janela do carro. Já era quase meio dia quando ele voltou com a seguinte história: arrumar o vidro do carro foi fácil e barato, seguiu orientações e rapidinho já estava se encaminhando de volta ao hotel, para que pudéssemos discutir que rumos tomar. No entanto no caminho passou por o que ele disse ter visto como um sinal apagado, os policiais que o pararam contestaram que ele havia ultrapassado um sinal vermelho e lhe mostraram as severidades da multa que teria que arcar. 4000 litros de gasolina, uma sentença demorada, mundos e fundos. Tudo podia ser deixado de lado rolando uma graninha. Sem saber o que fazer diante da coação policial, meu pai concordou em dar os 150 dólares que o “agente da lei” pedia. Como só tinha duas notas de 100 dólares, mais boa parte do resto de pesos que havia sobrado a família, deu uma nota das notas de dólar enquanto viu o policial passar a mão no resto de seus pesos. Depois de mais essa não tínhamos mais vontade, ânimo, segurança ou dinheiro para continuar a viagem e saímos correndo de Corrientes em direção à fronteira brasileira.
Ao voltar ao Brasil – iniciei este relato ainda na estrada Argentina e termino em Pelotas – ficamos sabendo que a achacação policial anda bastante forte na Argentina, e a criminalidade também está em alta, tudo isso especialmente voltado a turistas, afinal a placa dos carros se transforma em um chamariz a este tipo de atividade. Onde há turistas há dinheiro. Infelizmente também sei que a recíproca é verdadeira, ouvimos frequentes notícias de turistas atacados por criminosos no Brasil, não sei como os policiais brasileiros tem tratado os turistas, especialmente argentinos frequentadores assíduos dos nossos litorais, e que vem geralmente dirigindo, talvez de forma parecida aos achacadores argentinos.
Em um momento de indignação postei no twitter que aqueles que reclamam do Brasil e exaltam nossos vizinhos deviam perceber que somos todos o mesmo lixo. Exagero, não somos lixo, mas temos sim os mesmos problemas, mazelas parecidas e culturas muito similares. E tudo isso tem que ser sanado, preferencialmente em conjunto. Utopias a parte, algo de concreto poderia ser feito pelos governos de ambos países para, no mínimo evitar que turistas virem alvos francos de criminalidade e coação policial, isso não apenas acaba com o lazer, mas muito mais grave destrói a imagem de um país. O brasileiro sofre de um terrível caso de baixa auto-estima (pra não dizer que alguns chegam ao extremo do “auto ódio”) por situações como estas que narrei acima.
Ao término dessa, infelizmente, curta temporada na Argentina acabo(amos) triste e frustrada. Não somente pelo dinheiro e bens perdidos, pelas incomodações e susto, mas principalmente pelo aniquilamento de uma viagem extremamente agradável até então. No entanto saio mais convencida do que nunca que somos todos irmão latino-americanos de fato, embora nem todos vejam ou se tratem desta forma.
Publicado em 03/02/11, em crônicas e marcado como sociedade, viagem. Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.

gloria, é verdade que coisas assim aconteçam , mas é verdade tb. qur o brasil não fica atrás. aqui , com certeza existe mais violencia e policiais corruptos. basta ver as noticias na televisão.
o brasileiro adora asssistir as mazelas dos outros para assim poder se justficar.
eu não sou paga pau de país algum, ao contrário, amo o brasil, mas infelismente detesto grande parte do povo que nele habita.
eu sou casada com argentino e sou muito feliz, namorei brasileiros e fui muito infeliz. moramos no brasil, por minha família , já que o meu marido tem seus pais falecidos
tems uma casa na capita da provincia de entre rios, um lugar muito especial para mim, pis lá passei momentos muito felizes.
façam uma nva viagm á argentina e com certza vocês mudarão de opinião. só que desta vez prgramem melhor.
a plícia caminera argentina é realmente corrupta, eu concordo.