Quem se levanta?
Jair Bolsonaro teve cerca de 120 mil votos nas últimas eleições, terá mais na próxima se continuar no atual ritmo. Explica-se: Bolsonaro não era um político da linha de frente. Veja bem, não era desconhecido, e aqueles mais interessados em direitos humanos já sabiam dos disparates dele, mas não era, ou ao menos não me parecia na visão de uma pessoa razoavelmente bem informada sobre política, que fosse nenhuma grande liderança dentro da Câmara ou socialmente. A partir da ampla divulgação dos acontecimentos de sua malograda entrevista no CQC, ele virou mais uma “voz da decência entre os libertinos”. Bolsonaro não perderá votos por causa de suas recentes declarações, porque estas sempre foram suas ideias, e quem já votava nele concorda com o que ele defende, só que agora ele parece ter ganhado um aliado, a mídia. Não que a mídia vá concordar com ele, muito pelo contrário, todos são unânimes em apontar como ele é terrível e preconceituoso, o CQC foi o primeiro a fazer isso, mas… continuou dando “ibope” pra ele. E o que se vê agora é muita gente que encontrou nele um líder. Ou seja, se antes Bolsonaro era um ignorante com poder, este poder foi multiplicado, pois o deputado já mostrou que sabe e irá usar a visibilidade que está tendo muito bem. Para concluir esta primeira parte: sim, eu culpo o CQC por tudo isso – mas a vastidão de absurdos que o programa se tornou é conversa pra outro momento.
Não sei quais foram as circunstâncias que antecederam a altercação entre o dep. Bolsonaro e a Sen. Marinor Brito, vi o que passou na TV. Marta Suplicy dava uma entrevista sobre algum ponto com respeito aos homossexuais na cartilha dos direitos humanos e era atrapalhada por Bolsonaro e sua trupe, até que a senadora paraense perdeu a paciência, subiu nas tamancas e tacou um monte de justos desaforos contra Bolsonaro. Este se utilizou dos subterfúgios de sempre, liberdade de expressão, preconceito reverso e ataques “não pode ver um heterossexual na frente dela que alopra. (…) Ela deu azar duas vezes: uma que sou casado e outra que ela não me interessa.” Deixarei de lado aqui a interpretação perversa que alguns tem do conceito de liberdade de expressão, e a falácia da heterofobia, para me concentrar no fato que o deputado Bolsonaro tem uma resposta pronta sempre que é atacado, questionado ou criticado por mulheres e homossexuais, a desqualificação sexual e social: “os gays respondem assim porque todos estão interessados em mim e eu não dou bola” ou “estas mulheres agem assim porque são umas frustradas, não tem um homem” etc, etc – ele não responde assim aos negros, pois racismo é crime no Brasil, portanto tem que fugir das acusações, já preconceito contra mulheres e homossexuais é aberto, permitido até encorajado.
O interessante, no entanto é que ele nunca parece responder com a mesma firmeza e empáfia contra homens, heterossexuais. Ainda que estes não sejam normalmente a maioria de seus maiores críticos ou de seus inimigos públicos, estranhamente já que estes são maioria em Brasília (ou nem tanto). De qualquer forma, não precisa ser um gênio para entender o porquê desta diferença de atitude com relação às minorias. Compreendo a atitude da senadora Marinor, quando se fala em agressão, geralmente se refere a agressão física, que é deplorável de fato, mas pouco se fala da agressão verbal e principalmente moral a qual as minorias são sujeitas todos os dias, particularmente as minorias de gênero (mulheres e homossexuais), que como falamos não possuem nenhuma defesa legal, ou social. São as piadas de gays, piadas de mulheres. Quantos de nós se levantam para reclamar quando uma mulher é chamada de “mal comida” por razões as quais um homem é chamado de um pouco mais que “chato”? E quando a única voz dissonante se levanta para falar algo é taxada de “radical” ou pior.
Quanto tempo se agüenta esse tipo de agressão e abuso, essa desmoralização, a qual se perde palavras, pois irrita e indigna, até explodir? E se parece que eu estou pedindo para que alguém nos defenda, não deixa de ser verdade, mas acredito que melhor do que outros defenderem as “minorias” seria que mais se indignassem com a maneira com que elas são tratadas.
Publicado em 16/05/11, em preconceitos e marcado como feminismo, política, preconceitos, sociedade. Adicione o link aos favoritos. 1 Comentário.

É por essas e outras que todos políticos brasileiros não sabem de nada, absolutamente nada!